setembro 20, 2005

Mitos urbanos

Excelente artigo de Rui Ramos sobre uma ponte. Entre-os-Rios, se a memória não atraiçoa.
(...)Nos últimos séculos, perdemos a sabedoria dos limites. A ciência e o Estado moderno convenceram-nos de que não temos de aceitar incapacidades ou fracassos. A ciência encontraria as soluções, e o Estado aplicá-las-ia para benefício de todos. Exigimos estar garantidos contra tudo, porque cremos que é possível estar garantido contra tudo. A ideia de “natureza”, como uma realidade exterior à consciência e ao poder dos seres humanos, é-nos estranha. A natureza, para nós, é aquele sistema de coisinhas verdes e bonitas que as escolas nos ensinam a “proteger”. Julgamos ter o mundo na mão. O clima muda, e a culpa que sentimos por isso é uma maneira de acreditarmos que está ao nosso alcance fazê-lo mudar outra vez. E no entanto, tivemos antepassados que sabiam que os seres humanos habitavam um mundo que lhes escapava, governado por forças frequentemente incompreensíveis e imprevisíveis. Nós somos capazes de imaginar e demonstrar harmonias comovedoras, como a “Gaia” de James Lovelock, mas já não de lidar com a dureza do “Recessional” de Kipling. Não conseguimos aceitar que, um dia, as nossas cidades possam ser ruínas, ou os nossos livros apenas fragmentos nos museus de outras civilizações. Não temos lugar para o fracasso, a decadência, o desaparecimento. Não sabemos o que seja a tragédia. Queremos durar para sempre, sem dor, nem surpresas, como se o Paraíso fosse aqui. E quando encontramos provas de que não é, culpamo-nos desesperadamente uns aos outros. Somos muito mais previsíveis do que os furacões.