março 03, 2005

Os cães do desejo

(...)Dobrei-me para te apanhar os sapatos largados na areia, atrasando-me na distância.
- Os cães... Não deixes que os cães me alcancem - gritavas-me, enquanto corrias e tropeçavas e voltavas a levantar-te, não estivesse o mar do meu lado.
Alcancei-te quando os tremores do teu corpo se habituaram ao ritmo paciente das ondas, fazendo-te compreender que era a pacificação que caminhava ao teu encontro. Ajoelhei-me junto a ti.
- Não há cães nenhuns. Não esta noite - disse-te suavemente, enquanto te limpava a face esborratada. - É generoso, o mar. Dissimula-nos as lágrimas, porque as quer tão bem - pensei-te ao ouvido.
Não te demores muito - levantei-me - e não te esqueças dos sapatos.
É generoso, o mar, transforma os pedaços que lhe vamos deixando na única força que conhece.(...)
In Memórias de um atirador furtivo com falta de vista. O melhor. Turvava a execução mas não a procura da saudade.