fevereiro 24, 2005

Terra queimada

(...)Intrigava-me a possibilidade de acreditar nos partidos da batalha. Poderia a chuva libertar-me dos acessórios e trazer-me a serenidade dos vagarosos passeios pisando a terra molhada. Com os cheiros matemáticos. Ainda se a equação pudesse não ser sempre a mesma, pelos traços mais diferentes. A que voltei a ver, desenhada pela chuva, na janela para onde ela se virou, dando-me a resignação.
- Agora. Não esperemos mais - atirou-me, como se eu lhe fosse mais indiferente que a estafada memória.
- Sabes que eu não o faço assim.
- Ah... aquela tua coisa de te achares... furtivo, não é?
- Não precisa de ser desta maneira.
- Já o espero há muito. Não há surpresas.
Não seria o fim do mundo - pensei, com a maldade que nem espera ser desmentida.
- Ela permanecia imóvel. - Separa-nos tanto agora, que podes mirar-me como se me olhasses a distância segura.
Mas não eram as palavras que me adiavam. Era o segredo do improvável silêncio da chuva. O que me faz caminhar pisando com cuidado a terra molhada. Esperando, a cada passo, encontrar objectos pessoais.(...)
In Memórias de um atirador furtivo com falta de vista. O melhor. Turvava a execução mas não a procura da saudade.