fevereiro 28, 2005

A cor

Se pudéssemos acordar porque não pudéssemos adormecer, queria-nos lá fora, a desejar a nossa normalidade dos outros. As pequenas coisas e todas as outras coisas para preenchermos o que esperamos da nossa cor. Abençoando-nos por todos os outros olhares, sossegando-nos tudo estar bem. Mas cada gesto, desafiante, dilui-se na cor e confunde-se com o que te recusas a fazer, terminando sempre por ser o mesmo. E quando a rendição da culpa nos toma como iguais, a cor já não nos sufoca, porque nada mais podemos respirar. A cor alimenta-se de si própria.
In Memórias de um atirador furtivo com falta de vista. O melhor. Turvava a execução mas não a procura da saudade.