janeiro 13, 2005

Rascunhos de balística

(...)Arrumava sempre com a complacência das malas que se fazem para uma viagem que não se quer. Descia a rua, headphones, nenhuma música, melhor se ouvisse a indiferença das desprezíveis correrias agitadas.Vagarosamente, esperando que um dia alguém parasse e me fitasse com uma tristeza verdadeira. Esperando pela última pessoa, a única que a poderia acompanhar, deixada sempre caída na pressa desnecessária. E levava afectuosamente aquela expressão tornada imperceptível pelo fascínio do grito de despedida, sem dor nem alívio, nunca sabendo se o gesto procurava sentir a ferida ou a contrição da serenidade, verdadeira pela primeira vez. Mas o que podem atingir os pesadelos confortáveis se os primeiros momentos da manhã trazem as frias expressões adequadas? Não foi hoje ainda que me cruzei com a minha pena. Não é ainda o meu dia.(...)
In Memórias de um atirador furtivo com falta de vista. O melhor. Turvava a execução mas não a procura da saudade.